Então, eis que ando a pesquisar, ler, estudar processos têxteis, históricos e costurísticos...
Suspiro a cada livro que encontro, e tem se tornado um dos meus passatempos preferidos o bisbilhotar a história, origens, artistas, evolução desses processos.
Tudo isso me me torna ainda mais apaixonada pelas costuras e fundamenta de certa maneira a minha pesquisa seja de ordem teórica ou prática.
Há o espaço das costuras, que se emaranham com as leituras, encontros, palavras, surpresas da Vida.
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Aliás, deixo a dica do conto A Infinita Fiadeira, de um dos meus autores preferidos, o Mia Couto É lindo, lindo...como tudo o que ele escreve.
Esse é um texto que copio aqui... tentarei conversar pessoalmente com Mia Couto na Feira do Livro em Porto Alegre no próximo domingo (olha a minha petulância!... mas e daí? Eu vou, rsrsrsrs.).
Leiam também essa lindeza:
A infinita fiadeira
(A aranha ateia
diz ao aranho na teia:
o nosso amor
está por um fio!)
A aranha, aquela aranha, era tão única: não
parava de fazer teias! Fazia-as de todos os tamanhos e formas. Havia, contudo,
um senão: ela fazia-as, mas não lhes dava utilidade. O bicho repaginava o
mundo. Contudo, sempre inacabava as suas obras. Ao fio e ao cabo, ela já
amealhava uma porção de teias que só ganhavam senso no rebrilho das manhãs.
E dia e noite: dos seus palpos primavam obras,
com belezas de cacimbo gotejando, rendas e rendilhados. Tudo sem fim nem
finalidade. Todo o bom aracnídeo sabe que a teia cumpre as fatais funções:
lençol de núpcias, armadilha de caçador. Todos sabem, menos a nossa aranhinha,
em suas distraiçoeiras funções.
Para a mãe-aranha aquilo não passava de mau
senso. Para quê tanto labor se depois não se dava a indevida aplicação? Mas a
jovem aranhiça não fazia ouvidos. E alfaiatava, alfinetava, cegava os nós.
Tecia e retecia o fio, entrelaçava e reentrelaçava mais e mais teia. Sem nunca
fazer morada em nenhuma. Recusava a utilitária vocação da sua espécie.
- Não faço teias por instinto.
- Então, faz porquê?
- Faço por arte.
Benzia-se a mãe, rezava o pai. Mas nem com
preces. A filha saiu pelo mundo em ofício de infinita teceloa. E em cantos e
recantos deixava a sua marca, o engenho da sua seda. Os pais, após concertação,
a mandaram chamar. A mãe:
- Minha filha, quando é que assentas as patas na
parede?
E o pai:
- Já eu me vejo em palpos de mim...
Em choro múltiplo, a mãe limpou as lágrimas dos
muitos olhos enquanto disse:
- Estamos recebendo queixas do aranhal.
- O que é que dizem, mãe?
- Dizem que isso só pode ser doença apanhada de
outras criaturas.
Até que se decidiram: a jovem aranha tinha que
ser reconduzida aos seus mandos genéticos. Aquele devaneio seria causado por
falta de namorado. A moça seria até virgem, não tendo nunca digerido um
machito. E organizaram um amoroso encontro.
- Vai ver que custa menos que engolir mosca -
disse a mãe.
E aconteceu. Contudo, ao invés de devorar o
singelo namorador, a aranha namorou e ficou enamorada. Os dois deram-se os
apêndices e dançaram ao som de uma brisa que fazia vibrar a teia. Ou seria a
teia que fabricava a brisa?
A aranhiça levou o namorado a visitar a sua
colecção de teias, ele que escolhesse uma, ficaria prova de seu amor.
A família desiludida consultou o Deus dos
bichos, para reclamar da fabricação daquele espécime.
Uma aranha assim, com mania de gente? Na sua
alta teia, o Deus dos bichos quis saber o que poderia fazer. Pediram que ela
transitasse para humana. E assim sucedeu: num golpe divino, a aranha foi
convertida em pessoa. Quando ela, já transfigurada, se apresentou no mundo dos
humanos logo lhe exigiram a imediata identificação. Quem era, o que fazia?
- Faço arte.
- Arte?
E os humanos se entreolharam, intrigados.
Desconheciam o que fosse arte. Em que consistia? Até que um, mais-velho, se
lembrou. Que houvera um tempo, em tempos de que já se perdera memória, em que
alguns se ocupavam de tais improdutivos afazeres. Felizmente, isso tinha
acabado, e os poucos que teimavam em criar esses pouco rentáveis produtos -
chamados de obras de arte - tinham sido geneticamente transmutados em bichos.
Não se lembrava bem em que bichos. Aranhas, ao que parece.
COUTO, Mia. O Fio das Missangas. São Paulo: Companhia das letra, 2009. Pg. 73-75.
gostaram?
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voltando...
Sigo costurando esses detalhes da vida com capricho e cuidado, da minha própria maneira...
A imagem acima eu vi
Aqui....
Que sirva de inspiração para todas nós neste final de semestre... com direito a um pouquinho mais de tempo para as costuras (nem que, para isso, seja necessário marcar na agenda)!
Si.